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Artigos: Brasil
A insuportável redondeza de uma bola de golf PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Domingo, 05 de Septiembre de 2010 13:35

Por YONAI SÁNCHEZ

Como um pastel que começa a ser dividido antes mesmo de ficar pronto, nosso governo amplia para 99 anos o uso da terra pelos inversores estrangeiros. Porções desta nação irão parar nas mãos dos que ostentam um passaporte forasteiro, enquanto que os empreendedores locais apenas recebem um usufruto agrícola por 10 anos. A Gazeta Oficial põe-se a falar de “negócios imobiliários” quando todos sabemos que o solo – nosso solo – não está ao alcance dos cubanos que queiram adquirir um pedaço para construir sobre ele.

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Outra das surpresas destes dias foi o anúncio da criação de vários campos de golf ao longo da Ilha. Com o objetivo de fomentar um turismo de classe, serão abertas extensões verdes e cuidadas de grama, rodeadas de serviços de luxo. Quando comentei com uma amiga sobre a aparição destes campos de lazer, a primeira coisa que ela me perguntou foi com que água iriam manter o verdor e o frescor da erva. Para ela – que vive num bairro onde o abastecimento ocorre duas vezes por semana – tornam-se-lhe dolorosos os chafarizes lançando um fino orvalho entre um buraco e outro. Minha amiga terá que se acostumar, porque o abismo se ampliará entre os nacionais despossuídos e os que chegam de fora com carteiras volumosas.

Já imagino o resto do filme: trabalhar num desses campos de golf será um privilégio para os mais confiáveis; em volta deles se postarão homens de pochete e gravata com microfones que vigiarão para que os nacionais não possamos entrar e… viver para ver… os funcionários mais destacados e fiéis também terão sua vez com o taco para conseguir completar o percurso da bola. Assim treinarão para esse amanhã que planejam ter, onde eles estarão de bermudas sobre um campo de golf aparado e nós os olharemos do lado de cá do alambrado.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

 
Comércio do pouco a pouco PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Domingo, 29 de Agosto de 2010 15:01

Por YOANI SÁNCHEZ

Oito da manhã e os trilhos da estação Factor y Tulipán têm, todavia, o frescor da madrugada. O único trem - que chega de San Antonio de los Baños – está atrasado. Os velhinhos, sentados nos muros, revendem os jornais comprados bem cedo e oferecem também cigarros a varejo. Esta semana sofreram um duro revés ao ser anunciado o fim da distribuição de pacotes de Titanes e Aroma (cigarros) pela cesta básica. Péssima notícia para os que são o escalão mais baixo do nosso mercado informal, esses que oferecem sua própria cota de racionamento para sobreviverem.

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Entre os absurdos da comercialização centralizada em Cuba, ocorre que só recebiam cigarros pela caderneta (de racionamento) os que haviam nascido antes de 1955. Na minha família meu pai tinha uma dotação, porém minha mãe – três anos mais nova - já não tinha o direito. Meio de brincadeira meio sério, um amigo me dizia que no futuro entregariam o último pacote com preço subsidiado à um cubano longevo que tinha nascido na metade do século vinte. Imaginam a cena? A bandeira tremulando, as trombetas soando, um batalhão cerimonial marchando até o ancião e outorgando-lhe a última porção de cigarros pela caderneta.

Para o bem e para o mal já não ocorrerá assim. Os que eram mais jovens quando se começou a conceder nicotina subvencionada, hoje apenas chegam a seis décadas de vida. Os que nunca nos beneficiamos com esse fornecimento sentimos que agora há algo a menos para nos jogarem na cara. Contudo, creio que alguém deveria indenizar os velhinhos da estação de Tulipán e todos aqueles que ao longo da ilha sustentam sua vida com esse comércio de pouco a pouco.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

 
Davos quer levar Dilma como presidenta PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Domingo, 29 de Agosto de 2010 15:04

Por CLOVIS ROSSI

Representantes do Fórum Econômico Mundial estão iniciando os contatos para levar Dilma Rousseff, como presidenta da República, ao encontro anual que a instituição realiza, todos os janeiros, em Davos, nos Alpes suíços.

Claro que os contatos também estão sendo feitos com José Serra porque organismos internacionais não podem se dar ao luxo de trabalhar convites para seus eventos com base em pesquisas de opinião pública, por muito confiáveis que sejam.

A isca para atrair Dilma é simples: Luiz Inácio Lula da Silva fez sua apresentação à sociedade internacional, já como presidente, exatamente em Davos, vinte e poucos dias depois da posse. Foi um baita sucesso de público, especialmente porque fez o discurso da ortodoxia econômica que é música aos ouvidos da clientela principal de Davos, que são os executivos das grandes empresas multinacionais.

Lula fora, antes de Davos, ao Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e também encantou. Depois, foi se distanciando de Porto Alegre e se aproximando mais e mais de Davos.

Para Dilma, apresentar-se em Davos é ainda mais importante do que o foi para Lula. O presidente já tinha razoável vivência internacional, tanto na pele de líder sindical como na de dirigente partidário. Algumas das empresas multinacionais que financiam o Fórum Econômico Mundial até o conheciam de negociações salariais em São Bernardo do Campo.

Já Dilma é uma incógnita. Só muito recentemente passou a acompanhar Lula em viagens internacionais, apresentando-se em vários seminários destinados a vender o Brasil a investidores estrangeiros. Seu discurso é eminentemente técnico ou tecnocrático, como alguns preferem.

Como presidenta, terá que fazer uma apresentação muito mais política.

No encontro deste ano do Fórum, cruzei com Charles Dallara, porta-voz do Instituto da Finança Internacional, o conglomerado dos grandes bancos globais, que estava satisfeitíssimo com o Brasil de Lula mas apresentou como incógnita para o futuro exatamente a perspectiva de eleição de Dilma.

É bom lembrar também que, na apresentação de Lula em Davos, dias após a posse, a figura-chave foi Antonio Palocci, então ministro da Fazenda, que fez muitas das conversas de bastidores. Palocci é, de novo, a figura central nos bastidores.

O outro pilar para que Lula agradasse ao povo de Davos chamou-se Henrique de Campos Meirelles, hoje como então presidente do Banco Central. Antes de entrar para o governo, Meirelles já era frequentador habitual de Davos, como banqueiro. Sou capaz de apostar que, fique ou não no BC com Dilma, Meirelles irá com gosto a Davos para avalizar a nova presidenta.

Para que o sucesso da eventual excursão a Davos seja completo, falta apenas a própria Dilma exibir ao menos parte do jeito Lula de ser. A conferir, talvez, em janeiro.

Clóvis Rossi

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

 
Faça-me uma ligação perdida PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Domingo, 29 de Agosto de 2010 15:00

Por YOANI SÁNCHEZ

O celular toca, porém não atendo. Espero que o ring ring termine e vou até um telefone próximo para anotar o número que ficou registrado. Adverti os meus amigos que me façam uma chamada perdida e depois lhes respondo, porém alguns insistem e esquecem do alto custo de um minuto de conversação na rede celular. Tenho um código de dois toques com eles se é urgente e de três se se trata de algo que pode esperar. Quando estou na rua e o aparelho que tenho no bolso vibra, procuro um terminal público que aceite moedas ou que não tenham lhe arrancado o bocal.

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Mesmo que a empresa de telecomunicações ETECSA tenha informado que o número de usuários móveis superará em breve o milhão, continuamos sendo limitados nesta tecnologia. Receber uma chamada nacional é uma loucura, configurar o MMS pode nos custar horas de peleja com as operadoras e encontrar um lugar onde vendem cartões de recarga parece com o filme “Missão impossível”. Como um adolescente cujos pés cresceram e os sapatos já não entram a nossa telefonia celular aumentou o número de assinantes, porém sem a melhoria correspondente de infraestrutura. Pois tal crescimento não obedece a um desenvolvimento integral, mas sim porque é devido ao desejo de arrecadar – a todo custo – esses bilhetes conversíveis e coloridos que simulam o dólar.

Apesar das recentes reduções nas altas tarifas, um médico ainda não pode custear uma linha de celular, porém a polícia política goza de tarifas subvencionadas em moeda nacional. Não é possível tampouco fazer um contrato para pagar no fim do mês, pois estamos condenados a ter um fundo antecipado para conseguirmos nos comunicar. Muitos nos sentimos cansados da ETECSA, porém o monopólio estatal não permite que outros competidores nos ofereçam um serviço melhor e mais barato. Enquanto não aparece uma solução, milhares de usuários ensaiamos um estranho código Morse com os celulares: um toque, dois, três…Não respondas ao outro lado! Apenas corra para o telefone mais próximo.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

 
Lesa urbanidade PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fuente indicada en la materia   
Domingo, 22 de Agosto de 2010 12:55

Por YOANI SÁNCHEZ

Do edifício número 216 saiu um rangido penetrante segundos antes das paredes se separarem e desabasse o teto. A fachada caiu depois de uma hora da madrugada quando não havia ninguém na calçada. O pó flutuou durante vários dias e grudou na roupa dos curiosos que foram olhar e tirar alguns ladrilhos do monturo de vigas, madeiras e lajotas. A edificação ao lado não sofreu muito e os vizinhos tiraram proveito do desabamento, pois lhes deixou livre uma parede em que poderiam abrir novas janelas. Um ano depois, onde havia a edificação desabada de dois andares, acumula-se o lixo de todo o bairro e os transeuntes urinam nos cantos formados pelas colunas.

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Os moradores foram parar num albergue conhecido como Venus, que fica a poucas quadras da estação central de trem. Chegaram alí com a esperança que seria uma estadia curta entre os tabiques e os lençóis pendurados a maneira de paredes. Contudo, estão há mais de 20 anos nos aposentos úmidos cheios de camas apertadas. Seus filhos cresceram alí, namoraram e procriaram enquanto compartilhavam o banheiro coletivo e a cozinha de paredes enegrecidas pelo fuligem.

A princípio acreditaram que os realocariam num lugar melhor, porém os furacões e a deterioração pioraram o fundo habitacional e milhares de pessoas somam-se, cada ano, à lista das vítimas. Com o tempo se esqueceram da sensação de abrir a porta da casa própria, tirar a roupa numa moradia sem pensar que dezenas de olhos indiscretos olham, tomar uma ducha sem que ninguém bata desesperadamente na porta requerendo sua vez. Esqueceram como se vive fora de um albergue.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

 
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